sábado, 20 de dezembro de 2025

Em memória ao meu melhor amigo, fiel companheiro, Bartô

     Esta é uma história de amor entre um humano e um cachorro, cujo final, apesar de trágico, busca trazer  reflexão e conforto para quem quer que tenha perdido um companheiro animal.

Esta é a história de dois grandes companheiros que foram unidos pelo acaso. Esta é a nossa história, Bartô.

O dia em que ele me pegou desprevenido, e que eu jamais teria noção do que viveríamos juntos

    Certo dia em uma rotina comum dividindo a casa com dois amigos, um deles perguntou o que achávamos de adotar um cachorrinho. Na sincera? Eu não tinha nem cogitado a ideia de adotar um pet a esta altura do campeonato. Havia saído da casa do meu pai fazia pouco tempo, enfim ganhado minha independência, com a carreira em desenvolvimento, dividindo moradia com mais dois amigos para ficar mais barato e não ter que gastar tanto com aluguel. Mesmo assim, falei que apesar de não ter a responsabilidade direta pelo bicho, eu ajudaria a cuidar. Concordamos todos em embarcar nessa aventura, e fomos buscar o jovenzinho que acabara de chegar ao mundo.

Ele era muito pequeno e fofo, todo caramelinho claro, um focinho mais branquinho com uma faixinha branca que se estendia até a metade da sua cabeça. Usava "meinhas brancas" em suas patinhas. Aquelas almofadinhas rosas de cachorro nenê. Ele era absurdamente f*cking fofinho e tinha um latidinho altamente estridente. Ele tinha muita energia e adorava morder tudo, porque seus dentinhos de criança pediam. Ele era muito, mas muito pentelho, e mesmo assim eu me encantei com ele à primeira vista.


    O menino que pegou ele, dava seu melhor para cuidar do agora nomeado Bartôzinho. Até hoje se discute quem realmente deu este nome a ele, afinal de contas, meu apelido é Bartô, então mesmo que o menino tenha adotado ele, ele ganhou meu nome, dado ou pela minha ex, ou pelo menino, que ambos negam, e se não fui eu também, porque seria um pouco egocêntrico ter um cachorro com meu "nome", quem mais teria sido?! Apesar de seu melhor para cuidar, a realidade é que o jovem Bartô estava passando perrengues tendo que comer ração de gato porque era mais barato, nas palavras do meu amigo de apartamento. Além disso, o menino canino ainda começou a apresentar problemas de alergia já nas duas primeiras semanas. Algo deixava o focinho dele com muita alergia, então se iniciou uma relação que viria a ser muito íntima, a do Bartozinho e o mundo veterinário.
    
    Foi identificado que algo estava causando alergia nele, então a refeição antes de qualidade duvidosa, estava sendo trocada por ração de cachorro (um dos inúmeros upgrades que ele ganharia ao longo da sua vida). Infelizmente meu amigo não tinha boas ideias de educação, e por ver o cachorro roendo absolutamente tudo, ele cogitou colocar pimenta nas coisas para que o bichano fosse impedido.

 Aí aconteceu algo que já não estavam nos meus planos: eu já estava começando a defender o little Bartô com unhas e dentes.
    
    Identificado que alguém ali no recinto claramente precisava de um apoio melhor, falei categoricamente que pimenta jamais iria para a boca do bebê, e que eu iria buscar entender como fazer ele não mascar os móveis.

Spoiler: eu não entendi e ele comeu muito dos nossos sofás vagabundos que encontramos na rua para ampliar os confortos do nosso cafofo.

Mesmo assim, comprei brinquedos, ração de cachorro, cerquinha pra ele não invadir outros espaços da casa. Resolvi o problema de alergia, sinceramente não sei como, mas troquei tudo e nunca mais deu problema.

Para a surpresa de zero pessoas, ele então começou a dormir na porta do meu quarto, fora da caminha dele. Preferindo deitar no chão duro que na sua caminha, só pra ficar mais pertinho de mim.
Esse cachorro era muito, mas muito amoroso, e eu não tinha ideia disso ainda.


Pois bem, esse era outro problema que eu precisava resolver. Eu não poderia deixar aquele bicho pobre indefeso, se pai nem mãe, dormir no chão assim, então tive que abrir a porta e colocar ele lá no meu quarto.

Mal sabia eu que ele tomaria conta da minha vida inteira, escalando gradativamente a cada segundo que estivesse comigo.

Não tinha nem cogitado ter um cachorro e muito menos dormir com um cachorro. Não que eu não gostasse, nunca foi isso, é que isso literalmente não tava nos meus planos. Mas por Deus, como era gostoso dormir com ele. Aí se iniciou uma relação também muito profunda e duradoura, entre Bartô pai, Bartô filho e sonequinhas. Muitas sonequinhas. Eu adoro dormir e ali descobri que encontrei um parceiraço de sono. Sabe aquele famigerado programa que as pessoas pensam em fazer, se se encontrar na casa de alguém, comer um bolinho e cházinho e todo mundo tirar uma soneca? Sinto muito invejosos, mas eu tive um parceiro de sonequinhas por quase 10 anos, vivendo infinitas sonequinhas. Imagem meramente ilustrativa, porque aí ele ainda era um desabrigado, mesmo já tendo um teto. Estava conquistando a sua dignidade aos poucos, digamos.


Iniciou-se outra preocupação sobre o chibi Bart: seu tamanho. Na minha ignorância, eu acreditava piamente no que nos foi dito no anúncio: macho, porte pequeno, castrado e vacinado. Todos os pontos em negrito eram mentira, e só era novidade para quem não sabia nada de cachorro. Afinal de contas, dado o tamanho das patas, existia um claro indicativo de que o Bartozinho certamente não sustentaria sua alcunha nem por um mês, porque de inho não tinha nada. Além disso, quem é que acredita que um cachorro já está cadastrado e vacinado com menos de 4 semanas de vida?! Pois é né, nós acreditamos. Em minha defesa, só posso dizer que fui pego desprevenido. Anyways, em coisa de dois meses ele já tava assim:


As gradinhas de contenção que ficavam na sala, que batiam praticamente dois palmos para baixo dos meus joelhos, passaram a se tornar apenas uma limitação psicológica para nosso Pitoco.

Inclusive Pitoco passou a ser um dos seus codinomes. Além deste, vieram: Pitocossauro Afonso, bebê, fofinho, biscoitinho de ódio, amendoinzinho, Dr Schlept Func Func, cuja referência acadêmica ficaria como FUNC FUNC, Schlept, além de alguns outros que não perduraram por muito tempo.

Comecei a entender o porquê meus amigos começaram a falar que ele se tornaria um enorme cachorrão feito de carne, ossos, muito amor e schlepts (lambeijos). Tentei negar, pedi para que parassem de jogar fermento no meu cachorro, mas não adiantou, ele multiplicava de tamanho de semana a semana, então fomos obrigados a nos mudar, porque eu jamais iria deixar um cachorro grande viver num apartamento. Mesmo que não fosse meu oficialmente, meio que eu já tinha adotado ele.

Passaram se poucos meses na casa nova e o suposto pai da criança falou que voltaria para sua terra natal, e me perguntou se eu poderia ficar com ele. Eu até dei risada na hora, porque pra mim (e pro Bartô - que a essa altura já tinha perdido o sufixo zinho because of reasons) já estamos fechadíssimos. Logo foi oficializada nossa união com apenas 3 meses de convivência.

Percebam um dos pontos mais belos da nossa história: Não foi eu que escolhi ele. Eu nem tinha planos de ter um cachorro nos próximos anos. Ele me escolheu. Quando ele percebeu que alguém ali cuidava dele e se importava com ele, soube na hora quem escolheria pra ser seu parceiro de vida.



Nessa altura do campeonato, o Bartô ainda dormia fora de casa, porque afinal de contas a casa tinha carpete, e meu medidor de amor ainda estava apontando para o nível amando muito esse fofinho e ainda não estava no estágio louco de amores por você, my baby pet, somos apenas um. Então como financeiramente eu ainda estava no estágio sobrevivendo com pequenos luxos, ainda não tinha conseguido dar uma boa estrutura para ele... e para a Leia.

Sim, pensando em melhorar a socialização do Dr Schlept, o destino me brindou com mais um caramelo incrível, cheio de energia, com uma personalidade formidável. Um amigo disse que uma cachorra havia sido atropelada em frente a sua casa, e que ele pagou pela cirurgia na patinha, que quebrou, porém que não teria lugar para ela, então comentou que eu estava em uma casa com um bom terreno, que comportaria mais uma doguinha. Eu nem pensei duas vezes, vem pra cá Dona Leleia! E assim começamos uma ocupação de caramelos, que infelizmente ainda sem recursos, estava assim:


Tava zoado né? Eu sei, mas era o que o tempo me permitia, mas eu juro que esta história só escala, então segura aí que vamos ter muitos e muitos level ups. O lado bom é que foram poucos meses de lugares com cara de cativeiro, porque logo depois já nos mudamos para a casa onde a maior parte dessa história foi escrita.

    O tempo passa e nos desenvolvemos. Ao invés de dividir moradia, eu passei a morar sozinho. Sozinho? Mas é claro que não, porque nesta casa eu, Bartô e Leléia viveríamos anos incríveis. Eu já começava a me especializar um pouco mais na carreira, então todos ganhamos mais conforto. A regra era muito clara, se eu melhorasse de vida, eles também melhorariam. Então pouco a pouco a qualidade da ração foi aumentando e a estrutura começou a melhorar.


    Apesar de caramelos, eles tinham personalidades muito diferentes. O único que eram parecidos era na capacidade de fazer maratonas de sono. A Leia, como veio das streets já com certa vivência, era muito esperta. Sabia exatamente o que fazer para que todos lhe dessem comida, carinho e tudo que quisesse. Todas as manhãs ela leva a sua cobertinha para tomar um belo banho de sol. O Bartô em contrapartida não sabia empurrar uma porta com o focinho. Infelizmente acabei criando o bebê em uma bolha, e eventualmente eu até segurava a bundinha dele pra ele fazer xixi porque volta e meia ele se desequilibrava. Mas! Era extremamente disciplinado. Comia sempre no horário, ração sem sache e vamo que vamo! Além disso tinha medo de ratos enquanto a Léia CAÇAVA ratos, com muita efetividade inclusive. Ela, uma loba das streets, ele, um piá de prédio, como dizemos aqui em Curitiba. Ela, a cachorra de aço que nunca fica doente, ele, o mais íntimo da classe veterinária.


    Lembram do episódio de alergia do Bartô na infância? Comprovando o quanto ele era sensível, com o tempo fui descobrindo que ele era um cachorro extremamente alérgico, mas só fui descobrir quando uma vez ele ficou muito mal com problemas de pele e lesões por todo o corpo. Tive que cortar todo o seu pelo e iniciar com antibióticos. Essa foi uma luta que se estendeu por alguns bons 4 anos, entre o início da manifestação dos problemas de pele até o diagnóstico certo acompanhado do tratamento adequado. O Bartô precisava tomar banho todas as semanas, sem pular nenhuma, com shampoo especial, além de caminha e cobertores sempre limpos. Se eu falhava uma semana, começava o problema e às vezes tinha que entrar com antibiótico. O bebê exigia cuidado minucioso.

O grande divisor de águas certamente foi a doutora Suyanne Hamasaki, da clínica Focinhos e Patinhas, que é especializada em dermatologia para cães, além de ser extremamente competente e também empática. Não apenas ela, mas toda a equipe que nos auxiliou e nos auxilia sempre que precisamos.


    Felizmente, com o passar dos anos, fui entendendo melhor a doença e como tratá-la e assim o Bartô passou a ter qualidade de vida novamente. Uma das mudanças que ocorreram após 3 anos na nova casa, era o fato de o Bartô e a Leia já não dormissem mais fora de casa. Como eles passavam mais tempo dentro de casa que fora dela, não se justificava mais deixar eles lá "porque suja" (como se nós humanos mesmo não sujássemos). Então passaram a dormir em caminhas ou nos sofás. A Leia inclusive pegou pra si uma poltrona, que passou a se tornar "a poltroninha sebenta da Leia". Mas nessa época o Bartô já começava a subir sorrateiramente na cama, e quando eu percebia, ele já estava ocupando metade da cama, e eu achava incrível dormir de conchinha com meu cachorro, e principalmente nos dias de frio.

    O Bartô tinha um perfil incrível de personalidade. Ele amava viajar, brincar de lutinha com minha mão enquanto eu simulava muito porcamente uma serpente, e eventualmente eu fingia que era um lutador de kung fu, fazendo vozinhas enquanto ameaçava pegar a patinha ou o focinho dele. Eu sempre segui religiosamente os ritos veterinários, então dei pouca comida de humano pra ele, mas entre o que era permitido, era tomate. Esse cachorro era o louco do tomate. Eu começava a cortar um tomate e ele sentia o cheiro de longe! Eu jogava os tomates ao ar e ele pulava pegando, muito cachorro jovem fortão, que orgulho. O dito porte pequeno chegou a pesar 35 pesados kilos.

Um dos seus hobbies era correr atrás de passarinhos vagabundos que roubavam sua ração. Apesar de eles sempre estarem aqui dentro de casa, eu deixava os potes de ração e a água fora de casa, porque meu espaço interno aqui também não é muito grande, mas logo tive que colocar para dentro. Os passarinhos cagavam no pote todo, além de comer boa parte da ração. E ainda bem que nunca dependi do Bartô e da Leia para defender aqui de ladrão, porque sem condições confiar tal tarefa aos caramelos, pela tamanha "bravura" de ambos. Mas, correr atrás de passarinhos, quando eu pedia, e não porque era para proteger seu próprio prato de comida, ele corria.

Com a ração dentro de casa eventualmente algum passarinho invadia, mas aí era pela sorte de eu estar em casa para resgatá-lo, ou pelo azar de eu estar ausente e o passarinho virar presa da Leleia assassina porque o Bartô ficava mais curioso e pegava o passarinho com a boca, que efetivamente agredia o bichinho. A verdade era que o Bartô era um querido, um amor, mas também extremamente medroso. Dentre a lista de coisas que davam medo nele, estava a chuva. Sim, a chuva normal, não uma tempestade, mas o evento chuva deixava ele cabreirinho. Além disso, tinha muito medo/ódio de liquidificador, aspirador, secador e o maior arqui-inimigo dele: o moedor elétrico de café.

Se ele ameaçava não comer a comidinha dele, bastava ligar o moedor de café que e falar que ele iria comer sua ração, que ele corria para o pote e comia tudo antes que seus pensamentos sobre as ameaças se concretizassem.

Outro aspecto que diferenciava muito meus caramelos, era o fato da Leia ser uma doga extremamente sociável com pessoas, mas detestar com todas as forças qualquer entidade viva que não seja humana, enquanto o Bartô era um cara meio ressabiado com humanos, escolhendo pouquíssimos para serem amigos, mas com pets ele era o mister nice guy, todos da escolinha de catioro o amavam. Mas quando o Bartô amava alguém, ele se entregava que era lindo de ver. Eu amava quando meus amigos que o Bartô gostava vinham aqui em casa só pra ver como ele ficava feliz e interagindo, mostrando claramente que estava feliz por vê-los. Em festas aqui em casa, com mais de 50 pessoas, ele interagia muito bem com todo mundo, claramente apreciando o rolê. Em festas não tinha tempo ruim e o Bartô era parte importante da felicidade que nos tomava.

Quando eu jogava video game na sala ou trabalhava no escritório, ele sempre estava em um cantinho olhando pra mim. Às vezes apenas olhando para o papai. E às vezes eu apenas estava a apreciar a presença incrível dele. Levantava, vinha perto da minha cadeira e se aproximava com o bumbunzinho, pedindo carinho. Orelhas, peito e bumbum, eram os lugares favoritos de carinho dele. Era impossível pra mim levantar e ir ao banheiro, ou pegar água, qualquer coisa que fosse fazer, e não passar na caminha dele para sempre dizer as palavras "te amo" e "você é muito importante pra mim". Não seria exagero dizer que eu falei isso um milhão de vezes.


O tempo passou, as coisas mudaram, sofri perdas, lutei, mudei de emprego, perdi, depois ganhei de novo, foram lutas e lutas, e absolutamente todas elas, o Bartô foi meu alicerce. Sempre bonzinho, pedindo para subir na cama com seu apitinho agudo, me abraçando e sentindo meu abraço em cada conquista ou cada derrota. Para além de todas as expressões de efeito, posso dizer do fundo da minha alma que o Bartô era o meu melhor amigo.

Com 9 anos juntos eu era completamente apaixonado por ele, tinha consciência da nossa história, da nossa construção, de uma história de acasos, de planos para morar no exterior juntos, tudo estava sendo planejado com ele e com a Leia. A prioridade sempre foi eles. Parentes meus riram quando eu disse que levaria meus bebês para morar na Europa comigo, custando o que custar, mas que isso era pra mim uma negociação que não teria como tirar de cima da mesa. Eu não deixaria ninguém cuidar deles, numa doação miserável como se fossem coisas. Meu contrato sempre foi vitalício. Desde quando eu percebi que competia a mim cuidar do Bartô. Desde quando eu escolhi receber a Leia. Todos os meus planos de vida vão depender deles porque eles estão comigo 24hrs por dia e se torna impensável abandonar um dos meus.



Descobri um novo significado na palavra amizade. Entendi que amizade e companheirismo você pode ter até com quem não compreende suas palavras, mas que o que importa é como suas almas se relacionam. E é a partir daqui que a história começa a ganhar um novo sabor: o amargo.

    Estávamos todos felizes, fazendo mil planos, para cá e para lá, vamos nos mudar, não vamos, vamos sair do país, mudar de casa talvez? Enfim, planos. Quer coisa mais gostosa do que planejar a vida com quem você ama? Todos os exames de sangue do Bartô estavam incríveis. Uma coisinha ou outra fora, mas nada grave. Esgotei todos os exames que tinham do plano de saúde, em setembro de 2025, para não fechar o ano sem ter feito todos os testes para garantir que nem Leia, nem Pitocossauro Afonso, tinham quaisquer problemas de saúde, porque aqui em casa somos pró saúde e fazemos acompanhamentos  necessários (não deixem de fazer!).

Eis que ao voltar de uma viagem a São Paulo, peguei o Bartô na escolinha de catioros do professor Rodrigo, e ele estava muito estranho... tipo, estranhão mesmo, sabe? Nada animado, meio apático, meio fraco. Estranho... estranho ver o Bartô assim porque afinal de contas todos os exames dele estavam certos. Então no dia seguinte fomos no vet, ele pareceu melhor, e foi dado remédio para dor, caso viesse a apresentar comportamento estranho novamente. Seguimos a vida normalmente, apesar do susto.


Certo dia ao dar aquela olhada costumeira no Pitoquinho, percebi um calombo no peito dele.

Quando vi, não entendi nada, mas eu não estava preocupado porque eu jamais iria pensar que pudesse existir qualquer sombra de problema, ainda mais grave, com ele. Apesar dos problemas de pele, ele sempre teve uma saúde boa para todo o resto. Sempre com bons exames, peso, tudo certo. Então fomos visitar a tia Suy (a vet) e os exames deram inconclusivos, exigindo outros exames. Eu estava no trabalho quando a Suy me ligou e me deu o diagnóstico. O amor da minha vida, o ser que mais me trouxe amor nesta vida, tinha um tumor enorme no tórax. Um não, dois. Não sabendo se um já era metástase do outro.

A partir daí minha vida, que já não era um conto de fadas, se tornou um verdadeiro filme de terror.

No momento em que soube, eu já desabei. Se tem algo que acaba comigo, é quando algo foge do meu controle, não por falta de planejamento, não por falta de dinheiro, mas por falta de qualquer sombra de esperança. No momento eu me desesperei, pensei que o jogo estivesse entregue, mas ainda existia a possibilidade de não ser um tumor maligno. Embora a partir desta informação meu sono nunca mais tenha sido o mesmo. Sabe o significado de sensação de estômago revirado, aperto no peito? É provado pela ciência que a dor de uma perda causa uma dor equiparável a uma dor física, e lamentavelmente eu tenho sentido isso 24hrs por dia desde este terrível diagnóstico.

    Os dias foram passando e eles foram levando consigo toda a energia que existia dentro do Bartô. Pouco a pouco. Os novos resultados chegaram, e como se minha mente paranoica já não tivesse fantasmas o suficiente, o veredito foi dado: O Bartô estava com um câncer extremamente agressivo, nos ossos, chamado, osteossarcoma, que por definição é: osteoma sarcomatoso, o mais maligno dos sarcomas ósseos, que afeta principalmente as extremidades dos ossos longos. Que inclusive, é comum em cachorros de grande porte... ah Bartozinho, queria tanto que você não tivesse sido acometido por esse problema irremediável...

    Aos poucos ele foi piorando e um dia ele piorou muito. Foi levado então para um hospital fora da cidade, para fazer mais exames. Lá identificaram que o tumor estava soltando sangue para dentro do corpinho dele, e drenaram por volta de 150ml de sangue dentro dele. A Suy me passou os novos resultados, a leitura deles e o que viria pela frente e uma decisão rápida precisava ser tomada. Ele precisava ser operado imediatamente, caso contrário não daria mais tempo devido a metástase poder tomar mais do corpinho dele, impossibilitando a cirurgia. Iríamos para o tudo ou nada.
    
    Neste dia do novo exame, antes da cirurgia, foi um dia que eu fiquei ainda mais preocupado. O Bartô estava tendo dificuldades para andar, e não estava nem conseguindo chegar até a clínica, que fica a apenas duas quadras da minha casa. Na metade do caminho eu me ajoelhei em frente a ele e chorei, implorando para ele andar um pouquinho mais, porque eu não queria pegar ele no colo devido ao tumor no tórax. Não queria machucar ele. Em meio às minhas súplicas, ele levantou e andou até lá. Eu tinha esperanças de um futuro melhor. Eu precisava muito me agarrar a possibilidade de poder vê-lo por mais anos, porque eu definitivamente não estava preparado para aquilo. Na clínica, veio a pior notícia que eu poderia receber:

O tumor havia tomado todo o seu tórax, impossibilitando qualquer intervenção cirúrgica porque o risco seria tão alto, que sair vivo da cirurgia já era uma possibilidade muito baixa.

Neste momento a Suy me disse para aproveitar os últimos dias com ele, porque sua hora estava muito próxima e ele não aguentaria mais que poucos dias. Eu fiquei com muito medo nessa hora. Me senti aterrorizado pela notícia. Não dava para imaginar mais um mundo sem Bartô. Eu queria ver ele bem velho e que a morte fosse uma possibilidade apenas bem a frente. Fomos para casa e ali se iniciou a semana mais intensa da minha vida.


    Por estes dias, ele já não estava mais comendo, seu coco já era pura diarreia estava tomando remédios para dores fortíssimos, porque afinal de contas já estávamos nos estágio dos chamados: cuidados paliativos. Eis que no dia que voltamos da clínica, ele dormiu bem e no dia seguinte estava mais espertinho, voltando a comer sem eu pedir. Eu nem precisava mais usar o moedor de café maldito, o que era algo realmente animador. Dia após dia ele foi dando sinais de melhora e acuado pela realidade que nos cercava, eu resolvi buscar uma fé que eu nunca tive. Não sou ateu, mas tampouco sou religioso, mas quando a medicina veterinária havia condenado meu cachorro, me bastava apenas acreditar em milagres.

    Uma noite em meio a respirações pesadas do Bartô, porque o tumor havia crescido tanto que estava deslocando e apertando seus órgãos internos, eu montei uma caminha ao lado da caminha dele, e ali deitei. Fiquei abraçando ele e pedindo desesperadamente a ele que não me abandonasse porque um mundo sem Bartô pra mim é com certeza um mundo pior. Comentei muito com ele do que comentei aqui neste texto, repassando momentos desde a sua chegada e usando "te amo" como se fosse um sinal básico de pontuação, ainda reiterando por diversas vezes: "você entende que eu te amo né?!".

Por estes dias eu resolvi pagar por uma consulta com uma psicóloga. Fui tentando um por um para ver quem me atenderia num final de tarde de sexta-feira. Por fim uma senhora me atendeu. Sessão de 1h30m, um sonho de consumo para quem estava desbravando os confins do fundo do poço. Iniciamos e eu já tinha um speech pronto para dizer qual era a situação e onde eu me encontrava. Com uma lapada seca, de cima para baixo, a psico começou dizendo que eu estava sofrendo demais por um cachorro, e que isso estava acontecendo porque sou uma pessoa de 36 anos e não tenho filhos, logo estou direcionando meu amor para o cachorro quando claramente algo está faltando na minha vida. Afinal de contas, como justificar tanto sofrimento por um cachorro?

Tal como Rocky Balboa, fui me esquivando dos claros ataques, onde ela dizia que eu era uma pessoa difícil, que eu tinha que reatar com meu irmão (meu eu falando claramente que estou tranquilasso com esse assunto), que eu estava enganando minha parceira de relacionamento porque ela com certeza quer ter filhos, mas eu não dou espaço no relacionamento para isso e mais uma porção de delírios. Constantemente eu falava "Mas olha, se eu não acho um problema não falar com meu irmão e não ter filho, e nem trouxe isso, por que estamos falando sobre isso?", mas não adiantava. Quando deu 1h 28m de sessão, eu olhando para o relógio na ânsia do término, ela resolveu estender. Estendeu 10 dolorosos minutos, e eu lá aguentando. Estendeu 20, 30 e pasmem, a sessão de tortura durou longas 3 horas, terminando 22:30 da noite de sexta-feira e eu morrendo de fome, miserável, depois de ter a pior sessão de terapia da minha vida. Ainda bem que minha autoestima é boa e eu sabia que ela estava falando um turbilhão de asneiras, o que me confortava. Para uma coisa essa maldita sessão de terapia serviu: eu queria deixar de sentir tristeza. Eu deixei. Sim. Para dar lugar a um sentimento de ódio extremo. Apesar disso, ainda dei 3 estrelas, porque eu sou idiota e acabo não querendo desagradar a pessoa. Ela me perguntou se eu queria o dinheiro de volta, e em uma situação normal eu não pediria, mas esta não era uma situação nada normal e pedi o dinheiro de volta sim, sem qualquer sombra de arrependimento.

Decidi buscar informações sobre o plano astral e o que acontecia nesses momentos. Um dia desses que ele estava mais animadinho, fomos passear e no caminho busquei um contato com minha falecida mãe, da qual eu pouco lembro porque havia perdido ela muito cedo... de câncer, quando eu tinha apenas 8 anos. O trauma na época foi tão grande que eu simplesmente bloqueei as memórias com ela, me restando umas poucas, talvez três ou quatro. Por mais que eu não lembre, eu sinto que minha falecida mãe era uma pessoa incrível, porque cresci numa casa sendo espancado pelo meu irmão mais velho, e apesar de eu amar muito meu pai, ele não consegue demonstrar muito carinho, logo minha mãe certamente era meu alicerce. Acho que meu subconsciente vinculou algo entre estes dois seres, sua importância e sua doença, e por isso eu estava à beira de um colapso.

Meio sem jeito, por medo de pensar que minha mãe me achasse um interesseiro que só aparece para pedir favor, comecei meu speech explicando toda a situação, me sentindo meio bobo por pensar "mas se ela tá no plano astral, não é idiota eu ficar explicando, sendo que ela tem todo acesso ao database?", mas mesmo assim, achei educado dar introduções e segui minha conversa.


Pedi a ela que tentasse conversar com alguém da organização superior, pra tentar negociar um prazo a mais para meu menino, abrir um protocolo com alguém importante, um ticket, sei lá, qualquer coisa que o fizesse ficar, no meu humilde pedido, mais uns 3 ou 4 aninhos pelo menos. Busquei entender sobre o que se fala sobre a passagem dos cachorros desta para a melhor, e nisso vi que eu estava cometendo um grave erro ao ficar pedindo desesperadamente para ele não me abandonar. Aprendi que fazer isso só faz com que o cachorro entenda que não pode ir ainda e isso prejudica sua ida. No mesmo dia que aprendi sobre isso, imediatamente deitei ao seu lado, na caminha que eu improvisei para ficar pertinho dele, porque ele já não podia subir mais na minha cama, devido a fraqueza e também ao tumor que fazia com que tudo ali dentro ficasse super sensível, e falei a ele:

- Bartô, me desculpa por ter dito que você não poderia me abandonar. Eu sei que você não quer isso tanto quanto eu, mas as condições de agora não nos permitem que a gente continue curtindo nossa vida incrível juntos. Se for o melhor pra você, pode ir, meu menino. Eu não posso mentir pra você e dizer que eu não vou sofrer, porque eu já estou sofrendo muito, muito mais do que eu acho que eu aguento inclusive. Eu vou sentir muito a sua falta. Você é o melhor do mundo e eu te amo como nunca pensei que fosse amar antes. Nosso amor é incondicional! Você é a melhor companhia que eu já pude ter. Eu já falei com a minha mãe lá em cima, e pedi pra ela te receber, assim você já tem um contato de confiança pra desbravar o outro plano.

Infelizmente o período de extensão foi apenas de uma semana. Eu entendo mãe, foi o melhor que você conseguiu e eu agradeço demais por isso. Certo dia o Bartô piorou muito e desesperado pedi para a condução levar o Bartô até a Focinhos. Lá ele foi internado e a partir disso eu imaginava o que viria. Eu não posso dizer que eu sabia. Eu tinha noção. Eu não sabia que seria algo tão devastador.


    Já na primeira noite que ele passou na Focinhos, novos exames de sangue foram feitos e como esperado, haviam mostrado piora. Claro sinal de inflamação, anemia, tudo meio torto e fora do lugar. Apenas um pensamento me rondava: este é o fim da linha e com maturidade eu preciso normalizar e falar sobre eutanásia. Já não fazia mais sentido deixar meu fofinho definhando, longe de mim, apenas aguardando que a morte lhe buscasse, tendo dias tristes, deitado em sua caminha, sem sequer poder sentir o cheirinho do seu pai e escutar a sua voz. Fui visitar ele logo após a primeira noite, decidido que ali teria que terminar seu sofrimento.


E quem disse que eu consegui? Passando os momentos com ele, olhando em seus olhos, ele querendo passear comigo pela clínica, mesmo que super debilitado. Quando comentei com a Suy que queria encerrar este capítulo, ela me perguntou "Agora mesmo, Gui? Nossa eu não tava preparada". Ainda bem que ela falou isso porque eu também não estava preparado. Definitivamente não estava. Dei um beijinho nele e fui para casa sabendo que pensamentos tortuosos me assombrariam.

    No dia seguinte, fiquei pensando o tempo todo que o momento chegaria, e isso revirou meu estômago todo minuto do dia 19/12/2025. Fui para a clínica por volta das 17:30 e lá encontrei meu príncipe. Nos deixaram à vontade em uma salinha, onde conversamos por um bom tempo, e ali ele me disse com seus olhos, que precisava de ajuda. Mais uma vez, deitado no chão com ele, eu chorava incessantemente, agradecendo muito por tudo que havíamos vivido, por ele ter sido a melhor e mais incrível companhia que eu já tive. Ele parecia mais confortado e ciente do que estava acontecendo. Era um cachorrinho muito inteligente e sensitivo.

Coloquei ele em cima do suporte onde os cachorros são examinados, e ali a Suy me explicou como funcionaria o processo. Nesse momento, aos prantos, enquanto eu me despedia com palavras de conforto como "Você não vai sentir nada", "Seu sofrimento vai acabar", ele me um schlept final que foi a estaca final no meu coração. Através daquela lambida eu entendi. Eu entendi que ele entendeu, e ali ele expressou a sua gratidão. Como quem diz "Pai, eu entendo e me despeço. Eu te amo". Foi com certeza o pior momento da minha vida e ali fez um buraco no meu coração que eu não consigo descrever. Ver seu batimento cardíaco parar, sua respiraçãozinha cessar... tudo isso são cenas que eu jamais vou esquecer na vida. E ali meu melhor amigo, depois de nove incríveis anos ao meu lado, descansou finalmente.

Estou usando este espaço para trabalhar meu luto, e para dizer a você que passou ou está por passar esse momento doloroso, que seu momento é verdadeiro, e que você não deve nunca dar ouvidos a quem desmerece teus sentimentos. Infelizmente tiveram pessoas a minha volta que invalidaram meu momento, ou que não buscaram me dar apoio. Por sorte, tenho pessoas maravilhosas ao meu lado, com quem posso contar, chorar, ou apenas estar ao lado, e que vão me entender.

Valorize cada segundo do seu tempo com seu pet. A ligação de vocês está além do compreensível e tenho certeza que quem você ama, também te ama e confia plenamente em você. Seu amiguinho ou amiguinha é muito importante na sua vida e eu sei disso. Não deixe nunca de amar os animais. Se você perdeu um, tome seu tempo, mas não deixe de buscar outro amigo. Eu ainda vou me recuperar e vou trazer mais um membro super especial para dentro da minha casa, que será recebido com todo carinho, amor, parceria e apoio do mundo. Na vida, o que me faz viver, é justamente o amor, que faz meu coração bater, me coloca em meus melhores e também nos meus piores momentos. Do que valeria a vida se não para amar? E meu amor por cachorros é além do Bartô. Ele me ensinou e agora é meu compromisso levar isso para toda minha vida. Se você não tem um cachorro ainda, nunca teve, ou um gatinho, busque ter. São milhares nas ruas que sofrem todos os dias, e que buscam um lar para transformar. No final das contas quem cuida não somos nós. São eles que cuidam da gente e evoluem nosso espírito.

Bartô, amor da minha vida, você foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Eu te agradeço pelos melhores 9 anos que vivi até agora. Siga em paz o seu caminho, e se por sorte meus pedidos forem atendidos, você vai voltar pra mim através de outro amigo que eu venha a adotar. Eu vou amar te receber novamente e a gente vai curtir muito cada segundo, como a gente fez tão bem nestes anos. Eu te amo meu querido amigo. E eu sinto tanto a sua falta...




4 comentários:

  1. Lindo relato, amigo ❤️ tenho certeza que o Bartô vai ler isso lá de cima e lembrar de você com muito amor e carinho, pois, pra ele, você também foi uma fortaleza e o melhor amigo que ele podia ter. ❤️🙏

    Um abraço apertado e conte com a gente sempre pra lidar com esse luto, que muito em breve vai virar uma saudade que preenche seu peito de amor ☺️✨

    Te amo!

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  2. Oi gui queria estar perto de ti pra te abraçar bem forte mas o que vose fez foi coisa de pai segue firme vose tem outro amiguinho cuida desse que está com vose ti amo Guilherme Deus te proteja sempre ti amo gui .sua tia.

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Em memória ao meu melhor amigo, fiel companheiro, Bartô

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